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Opinião

MEMÓRIAS E CURIOSIDADES DE UM DESAPARECIDO IMPÉRIO: 23. … inquinadas, com grandes quantidades de sardinha apodrecida!

Por: Inês Ribeiro 15 de fevereiro, 2026 2 minutos de leitura

Após a sua paragem na ilha de Socotorá (referida na última edição) e julgando ter encerrado a circulação árabe no mar Vermelho, os portugueses vão procurar controlar a estrada marítima vinda do Golfo Pérsico, pois por aí passavam as rotas comerciais e os navios de especiarias. Tal papel caberá a Afonso de Albuquerque. Para o efeito este navega pelo Mar Arábico, pequena parte do Oceano Índico entre a Península Arábica e o Indostão. Nesta zona, com a sua esquadra de seis naus e 460 homens de armas, irá afrontar os sultanatos muçulmanos da região. Logo em Agosto de 1507, conquista a cidade de Quilhate, sob a jurisdição do rei de Ormuz, sem uso da força pois a cidade aceitou submeter-se e tornar-se tributária de Portugal sem resistência armada. De seguida, a armada partiu para Curiate e, porque ofereceu resistência, foi atacada, conquistada e destruída. Situando-se o forte da cidade no interior de um enorme palmeiral, um dos meios de defesa do forte local perante os ataques, além dos canhões e da armaria foi o melaço de tâmara a ferver que, tal como na Idade Média, era lançado do cimo da muralha substituindo o azeite a ferver. A enorme violência da conquista a que se seguiu a pilhagem e a destruição pelo fogo, fez com que Albuquerque aqui ganhasse o título de “o Terrível” para uns e o de “Leão dos Mares” para outros. Cidades próximas, como Soar (que segundo a lenda, seria terra natal de Sindbad, o famoso marinheiro das sete viagens por terras “das mil e uma noites”), evitando a luta e a consequente destruição, aceitarão a submissão. Já o mesmo não acontecerá com as cidades de Mascate e Corfacão que serão igualmente tomadas pela força. 

Após estas conquistas na costa omanita, Afonso de Albuquerque dirige-se para o interior do Golfo Pérsico para se impor em Ormuz, localizada na ilha de Djarun. Aqui fundeia as suas seis naus e solicita a rendição. Tardando esta, conquista-a em Dezembro de 1507, num cruel assalto. O cronista João de Barros refere ser Ormuz “cidade bonita, verde, abastada e escala de mercadorias parecendo que o mundo é hum anel e Ormuz hua pedra preciosa engastada nelle”. Este pequeno reino dominava os principais portos do Golfo, da costa de Omã e cerca de 60 ilhas e ilhéus, assistindo os mercadores de todo o mundo. Aqui se comerciavam pérolas, ouro, prata, perfumes, incensos, porcelanas, tapetes, cavalos e sedas. Meses depois, quando levantava o seu forte, tem de abandonar Ormuz dada a retirada de três dos seus capitães, com destaque para Lopo Soares de Albergaria, que com os seus homens e navios, influenciados pela intriga e pelo calor medonho, abandonavam Albuquerque e partiam com uma ambição desmedida para as “riquezas da Índia”. 

Ormuz é reconquistada quando Afonso de Albuquerque já era o 2º Vice-rei da Índia, em Abril de 1515. O rei local sujeita-se a um tributo anual de 15.000 xarafins em ouro, tornando-se vassalo de Portugal. O interesse por esta salgadiça ilha, apesar dos problemas de falta de água, foi por ser um centro político poderoso no Golfo e o nó de redes comerciais que aí convergiam. Com a posse do reino de Ormuz, dominavam agora os portugueses a chave do comércio do Golfo. Em alguns locais daquelas águas e costas gerava-se um clima de desconfiança e hostilidade permanente. Indiferentes a isso, os portugueses procuraram criar locais de apoio para provisionamento de água. Foi o caso da conquista de Comorão na costa persa, Xamel na ilha de Laraak e Queixome na ilha de mesmo nome, todas vizinhas de Ormuz, na costa Leste. E razões havia para isso pois durante o cerco de 1507 a Ormuz, Afonso de Albuquerque manteve um dos seus seis navios a guardar a ilha de Laraak porque se tornara na única fonte de água potável, uma vez que todas as outras haviam sido inquinadas pelos locais, com grandes quantidades de sardinha apodrecida.

A fortaleza interrompida em 1508 é finalizada ainda em 1515, dispondo de 70 peças de artilharia, um aquartelamento para 500 soldados e enormes cisternas de água. Designada de fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, foi considerada no início do século XVII a mais inexpugnável do Império, e Ormuz recebeu a designação de “a cidade mais importante que os reis de Portugal têm nas partes da Índia”. 

Com a reconquista de Ormuz, passaram todas as cidades anteriormente ocupadas pelos portugueses, tais como Quilhate, Curiate, Mascate, Corfacão e Soar a serem novamente tributárias do soberano português em articulação com o Estado Português da Índia. Em Lisboa, D. Manuel assumia em 1523 o título de “Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Conquista, da Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia”. Na verdade, as riquezas destas cidades faziam jus ao altissonante título de D. Manuel I. Todas elas eram ricas no comércio de cavalos, incenso, mirra, especiarias, frutos secos e plantas medicinais. Corfacão foi considerada como uma das praças portuguesas mais “verde” na região desértica da Arábia, pois era circundada por alguns jardins e abundantes explorações agrícolas de tamareiras, figueiras e palmeiras ou de fruta, onde abundavam ainda melões e melancia.

Por estas cidades perduram ainda algumas palavras portuguesas como bandera, greja, mesa, roda, ceara, camisa, lenzo, etc. e outras usadas na construção naval tais como kobert (coberta), kawiya (cavilha), kalafet (calafate), kurva (curva), e, sendo a região terra muçulmana onde não são permitidas pela religião as bebidas alcoólicas, uma tradição portuguesa se mantém, pois, os omanitas destilam e apreciam a aguardente de figo.

A dimensão que a Expansão tomava e a fixação em terras que se iam ocupando, levou a que o Estado da Índia também contratasse e pagasse aos árabes locais, os lascares ou lascarins, da palavra persa laxhkari (significando militar), passando estes a fazer parte essencial das guarnições terrestres e até navais.

Por estas águas serão muitos os combates no século XVI e XVII, principalmente contra os “mamelucos”, do Império Otomano, e com os reinos de Xael, Fartaque e Adém, todos no litoral Sul da península arábica e que controlavam o Mar Vermelho. Em alguns puderam os portugueses contar com o apoio de aliados etíopes e de pequenos reinos locais como o de Camphar, Moca e por vezes de Adém. Noutros tiveram que resolvê-los sozinhos. Desse século e meio de confrontos falaremos na próxima edição.

[Bibgª: M. Allawati, Mª Manuela Blanco, S. Hameed. Por decisão pessoal, o autor não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico].

Opinião, por Cândido de Azevedo

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