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Cultura

“Não acreditamos que seja preciso ir para Lisboa ou Porto para viver grandes experiências culturais”

Por: Daniel Cepa 14 de Fevereiro, 2026 2 Minutos de Leitura

Duarte Santos é o rosto da Altavibe que se prepara para tentar dinamizar, no concelho de Almeirim, várias iniciativas culturais. A ideia é que não é preciso ir a Lisboa ou ao Porto para grandes experiências.

Como surgiu a ideia de criar esta empresa de promoção de espetáculos?
A ideia surge de um percurso muito natural. Sempre trabalhei, inclusive noutras áreas, mas os eventos estiveram sempre presentes na minha vida e são, sem dúvida, a minha grande paixão. Sempre tive uma enorme vontade de trabalhar por conta própria e de criar algo meu, e encontrei, nos espetáculos, a combinação perfeita entre gestão, criatividade, pessoas e emoção.
O que mais me motiva é ver a felicidade do público, sentir a vibração de uma sala cheia, a energia que um espetáculo bem conseguido transmite. Gosto de gerir equipas, de criar experiências e de transformar ideias em algo real. A Altavibe nasce exatamente dessa vontade de arriscar, de fazer acontecer e de viver daquilo que realmente me apaixona.
O meu percurso profissional anterior permitiu-me também conhecer diferentes realidades do setor, aprender com estruturas maiores e perceber o que funciona, e o que não funciona, quando se quer produzir com eficiência, rigor e qualidade.

Foi uma paixão pessoal pela música e pelos eventos ou sentiu que havia uma lacuna no distrito?
Foi claramente uma junção de ambas as coisas. A música e os espetáculos sempre foram um refúgio para mim, um espaço de criatividade, de reflexão e de expressão. Sempre admirei grandes produções e eventos bem pensados, e senti que tinha capacidade para organizar, gerir e produzir projetos com qualidade.
Ao mesmo tempo, senti que o distrito de Santarém, e em particular esta região, tem um enorme potencial ainda por explorar. Pela sua localização, acessos, diversidade de espaços e público, pode ser um palco muito interessante para espetáculos de várias naturezas. A Altavibe nasce também com essa ambição: começar aqui, valorizar o território e mostrar que é possível criar cultura fora dos grandes centros.
Não acreditamos que seja preciso ir para Lisboa ou Porto para viver grandes experiências culturais, é preciso acreditar, investir e fazer acontecer onde estamos.

Criar uma empresa em jovem idade não é fácil. Quais foram as principais dificuldades no arranque do projeto?
As dificuldades foram e continuam a ser muitas. Desde logo, a falta de nome no mercado, de portefólio, de fundos e de apoios. No início, é difícil convencer parceiros a arriscar, artistas a confiar e espaços a acreditar num projeto ainda jovem.
Existe também toda a parte burocrática e de gestão, que se torna ainda mais desafiante quando se tenta criar algo praticamente sem recursos financeiros, sem instalações próprias e sem material. É um caminho feito de muita persistência, aprendizagem constante e muitos “nãos”. Faz parte do processo, mas exige resiliência, paciência e uma enorme capacidade de adaptação.

Por que escolheu Almeirim como base da empresa e principal palco para os espetáculos?
A escolha de Almeirim foi muito consciente. Durante a procura por espaços, percebemos que a inauguração recente do novo Multiusos de Almeirim trouxe uma infraestrutura moderna, versátil e com ótimos acessos, capaz de receber diferentes tipos de espetáculos.
Ao explorar as opções, sentimos também uma clara vontade da Câmara Municipal em dinamizar o espaço e em dar-lhe vida. Acreditamos que os equipamentos públicos existem para servir o público, e que é fundamental apostar neles e criar programação regular. Com o apoio e abertura demonstrados pela Câmara de Almeirim, decidimos que faria sentido começar por aqui e montar aqui os nossos palcos, algo pelo qual deixo, desde já, um agradecimento especial.

Que tipo de eventos pretende promover?
A Altavibe não se quer limitar a um único formato. Queremos promover uma programação diversificada: espetáculos de música, comédia, teatro, sunsets, feiras culturais e, quem sabe no futuro, até um festival de âmbito regional.
Gostamos de pensar os nossos eventos como verdadeiros ecossistemas, onde tudo está ligado, artistas, público, espaço e parceiros. Apostamos em produções eficientes, bem organizadas e com identidade própria, dando espaço tanto a artistas consagrados como a talentos locais e emergentes.

A que públicos quer chegar?
Queremos chegar a todos. Jovens, famílias e diferentes faixas etárias. A nossa programação está a ser pensada exatamente com esse objetivo: criar espetáculos distintos, acessíveis e adequados a públicos diferentes, porque acreditamos que a cultura deve ser inclusiva e acessível a todos.

A promoção de espetáculos pode ser também um motor económico. Que impacto acredita que estes eventos podem ter no comércio e na vida social de Almeirim?
Acreditamos que o impacto vai muito além de Almeirim, podendo estender-se a todo o distrito. Eventos culturais trazem movimento, pessoas, dinamismo e vida às cidades. As produções maiores, naturalmente, acabam por gerar maior impacto no comércio local, restauração, alojamento e serviços.
Além disso, gostamos de trabalhar com fornecedores locais sempre que possível: gráficas, designers, fotógrafos, técnicos e outros profissionais da região. Isso cria oportunidades, gera rendimento local e fortalece a economia. É algo que nos orgulha desde o início e que queremos continuar a reforçar no futuro.

Tem sentido apoio por parte das instituições, associações ou empresas locais? Que tipo de parcerias considera essenciais para o sucesso do projeto?
O apoio ainda é limitado, o que é compreensível numa fase inicial e com pouca visibilidade. No entanto, por vezes é desmotivador ver instituições que se queixam da falta de iniciativas jovens, mas que depois não respondem ou mostram pouca abertura quando surgem projetos com ambição.
Para nós, as parcerias essenciais passam por instituições públicas, espaços culturais, associações locais e empresas que acreditam na cultura como motor de desenvolvimento. Parcerias baseadas na confiança, no risco partilhado e na vontade de construir algo a médio e longo prazo são fundamentais para o sucesso do projeto.

Qual é hoje o maior desafio para quem promove espetáculos a nível local?
O maior desafio é, sem dúvida, conquistar o público. Em muitas localidades existe pouca oferta cultural regular, e isso faz com que as pessoas estejam menos habituadas a consumir eventos novos ou formatos diferentes. Existe também a ideia de que só os grandes centros recebem grandes apostas, o que cria desconfiança.
A isto juntam-se os custos, a burocracia e a quase inexistência de financiamento estruturado. Os poucos apoios existentes acabam, muitas vezes, por ser apenas complementares, exigindo que o promotor assuma quase todo o risco. É um contexto desafiante, mas que acreditamos poder ser mudado com consistência, continuidade e trabalho sério.

Quais são os objetivos a médio e longo prazo?
A médio e longo prazo, queremos crescer a nível nacional e tornar a Altavibe uma referência enquanto promotora que não aposta apenas em grandes nomes, mas que dinamiza territórios, apoia talento nacional e cria experiências com impacto real no público.
Numa fase inicial, faz sentido consolidar o trabalho na zona centro do país, criar formatos sólidos e depois escalar para outras regiões, sempre com a mesma identidade e filosofia.

Que mensagem deixa aos jovens que gostavam de criar o seu próprio projeto na área cultural?
Que não desistam dos seus sonhos, mas que tenham consciência do que isso implica. Criar um projeto próprio não é fácil: envolve abdicar de tempo, conforto, estabilidade e muitas vezes da vida pessoal e social. Não é um caminho para todos , e está tudo bem com isso.
Mas, para quem tem a certeza, a mensagem é insistir, aprender com os erros, não desistir aos primeiros obstáculos e, acima de tudo, fazer algo que traga realização pessoal. Porque é isso que vai acompanhar essa pessoa durante toda a vida.

Concertos, humor, teatro, festas temáticas ou uma mistura de várias áreas?
Uma mistura de várias áreas. Acreditamos que a diversidade cultural é essencial e queremos trabalhar com diferentes formatos, linguagens artísticas e públicos, sempre mantendo a qualidade e a identidade dos nossos projetos.

Acha que o concelho tem potencial cultural ainda por explorar?
Sem dúvida. Almeirim tem espaços, localização, acessos e público para muito mais do que aquilo que, atualmente, acontece. Falta, muitas vezes, continuidade, risco e programação regular.
Acreditamos que, com projetos consistentes e parcerias certas, o concelho pode afirmar-se como um polo cultural ativo, atrativo e inspirador, tanto para quem cá vive como para quem nos visita.

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