Shopping cart

No Widget Added

Please add some widget in Offcanvs Sidebar

  • Home
  • Cultura
  • “O livro é uma caricatura enorme da pandemia”
Cultura

“O livro é uma caricatura enorme da pandemia”

Por: Daniel Cepa 21 de Março, 2026 2 Minutos de Leitura

Durante a pandemia, enquanto o país vivia entre confinamentos e incertezas, Paulo Serra foi registando o tempo à sua maneira: com traço rápido, olhar crítico e memória apurada. Covidtoon reúne esses desenhos, criados entre 2020 e 2022, num verdadeiro diário gráfico de um dos períodos mais marcantes da nossa história recente. Professor e cartoonista há décadas, Paulo Serra transformou decisões políticas, rotinas alteradas e emoções coletivas em imagens incisivas que hoje funcionam como retrato fiel da pandemia. Nesta entrevista, explica como nasceu o livro e reflete sobre o papel do humor — e do cartoon — em tempos de crise.

Como nasceu a ideia de criar Covidtoon? Foi um projeto pensado desde o início como livro ou os cartoons surgiram primeiro de forma espontânea, quase como um diário gráfico da pandemia?

Os cartoons nascem sempre de forma espontânea, desde os meus 14 anos. Os contextos sociais, políticos, profissionais e comunitários determinam acontecimentos passiveis de obter resposta dos seus intervenientes. Esta resposta é traduzida de mil maneiras. A minha é o cartoon. Acontecendo algo que me sensibilize, construo quase de forma imediata o ‘boneco’. Foram, de facto, um diário gráfico da pandemia, com dias e datas assinaladas. Nos próprios cartoons registo o mês e ano.

Num período marcado pelo medo, pela incerteza e pelo isolamento, por que optou pelo humor como forma de expressão?

Numa altura de medo, isolamento e incerteza, a sociedade não parou, funcionou de forma diferente. Não deixámos de comunicar, a vida continuou.

Acredita que o humor ajudou a sociedade a lidar melhor com a pandemia?

Na pandemia poucas manifestações de humor aconteceram. Mas o humor resulta da leitura e interpretação do próprio cartoon. Este pode resultar no objeto humorístico, mas quem disse que o fiz para alguém sorrir? Nuns casos sim, mas noutros nem por isso. Não consigo, em pormenor, explicar o processo criativo intelectual: o que sei reconhecer, naquilo que observo na realidade, é o potencial que me permite registar em papel convertendo o que vejo e sinto, num desenho incisivo, pouco elaborado, mas carregado de maior ou menor simbolismo.

O cartoon tem uma força comunicativa muito própria .Enquanto professor, o que é que este formato permite dizer que outras linguagens não conseguem?

O cartoon é uma expressão muito pessoal, resultado da construção mental e registo que  o ‘artista’ faz daquilo que é para ser representado. Cada linguagem tem expressão própria, suporte próprios e é fruída de forma diferente.

Que temas ou comportamentos sentiu maior necessidade de retratar durante a pandemia?

Os professores sentiram, de forma particularmente severa, os efeitos da pandemia. Nos primeiros tempos de incerteza e ignorância, as decisões governamentais recaem sobre os cuidados, comportamentos, normas crescentes de isolamento. Durante a pandemia, o afastamento profissional dos colegas e alunos, a vida online em exclusivo. Naturalmente que estes dois anos de incertezas,  fortes restrições e consequências graves relacionadas com a saúde, foram temas explorados.

Que tipo de reações tem recebido dos leitores?

Foi interessante assistir às reações dos leitores dos cartoons publicados nas redes. Muitos comentários e, lá está, muitos sorrisos para um tema sem piada nenhuma.

Algum comentário ou reação que o tenha marcado particularmente?

Modéstia à parte, recordo que todas as reações foram sempre positivas, favorecendo a continuidade da realização dos desenhos e suas publicações.

Sendo professor na área da comunicação, sente que este livro também é uma forma de reflexão sobre a sociedade e os media em tempos de crise?

Pergunta complicada… Fazendo uma leitura atenta dos cartoons, realizados ao longo de dois anos, e um exercício de memória sobre o que está representado em cada um deles, reportando às tais atitudes, comportamentos, que resultavam, inequivocamente, de decisões superiores, provavelmente teremos uma impressão de que muita coisa não correu bem, roçou o ridículo, o sofrimento podia ter sido atenuado. Mas como em tudo na vida, o que lá vai lá vai. Que se aprenda e se melhore no futuro.

Considera que Covidtoon pode funcionar como um registo da memória coletiva desses anos?

Conforme referi, disso não tenho dúvida. De 2020 a 2022, estão retratados ao mês os principais acontecimentos, com intervenção de figuras políticas da altura. O livro é uma caricatura enorme da pandemia.

Hoje, com algum distanciamento temporal, como olha para estes cartoons? Acha que continuam atuais ou que ganham um novo significado?

Há cerca de 50 anos que desenho cartoons. Eles têm uma contextualização muito localizada no tempo. Por que retratam ações específicas. Mas tem uma virtude enorme: são uma espécie de fotografia inequívoca de um determinado acontecimento, mas a qual acresce a interpretação, a divulgação e a opinião dos leitores. Não me parece que ganhem novos significados: os referentes ficam na história guardados eternamente pelos cartoons.

Depois de Covidtoon, pensa voltar a publicar cartoons ou outro tipo de obra ligada ao humor e à comunicação?

Eu tenho largas centenas de cartoons versando temas diferentes. Talvez um dia os organize e construa cadernos temáticos. Não pensei nisso ainda.

Que mensagem gostaria de deixar aos leitores que vão agora descobrir Covidtoon?

Que recordem a pandemia como um assunto sério. Mas  que agora, já com alguma distância temporal, consigam sorrir levando a coisa a brincar. É esse o meu objetivo no COVIDTOON.

Para finalizar, não posso deixar de referir a simpática oferta  da Câmara Municipal de Almeirim, na pessoa de Pedro Ribeiro, permitindo a publicação do livro. Ao Fernando Veríssimo o design integral do livro. À Odete Dias a inestimável colaboração pessoal na ajuda à construção da ideia e das palavras.

Etiquetas Relacionadas:

Notícias relacionadas