Perigo de extinção

Há quase vinte anos, na sequência da queda da Ponte Hintze Ribeiro em
Entre-Os-Rios, que vitimou 59 pessoas, o então Ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, apresentou a sua demissão «assumindo a responsabilidade política» pelo acidente e que «não ficaria bem com a minha consciência se não o fizesse».

Volvidas duas décadas, um cidadão ucraniano foi brutalmente espancado
quando se encontrava à guarda do SEF e agonizou até falecer. Pelo que agora se sabe, episódios de violência são usuais naquelas instalações. E o que aconteceu a seguir? A directora do SEF levou nove meses para assumir as suas responsabilidades e, pelo meio, mandou colocar, em cada sala, um “botão de pânico”. O Ministro da Administração Interna afirma que a recandidatura do Presidente da República a si se deve e, por isso, não se demite! E o Primeiro-Ministro, que tem um governo construído com base na amizade, não vai deixar cair o seu amigo. É mais fácil demitir alguém que prometa dar «umas salutares bofetadas» a dois colunistas. Nada de novo neste governo socialista. Se nos recordarmos dos casos polémicos ocorridos desde 2015, todos os governantes, recusaram assumir responsabilidades políticas pelo sucedido.

Foi assim, por exemplo, com os incêndios de 2017 e com Tancos, em que os
ministros foram forçados a pedir a demissão por pressão do Presidente da República. Percebe-se pois que, em vinte anos, o conceito de responsabilidade se encontra em perigo de extinção.

Humberto Neves
PSD Almeirim

Artigo de opinião publicado na edição de 15 de dezembro de 2020

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