Pampilho ao alto: Os filhos da Guerra

A vida dá muitas voltas, e com a crise, a vida dos Industriais teve um retrocesso tremendo, e a dos irmãos que fabricavam móveis não foi exceção. Ficando com divídas que não poderiam pagar só lhes restava a insolvência. Leiloada a empresa foi a mesma adquirida na totalidade por um investidor que se fez representar por uma advogada. Os irmãos e o Pai, choravam a desgraça que lhes batera à porta. Porém a advogada marcou com eles uma reunião pedindo-lhes que continuassem na empresa como se donos dela continuassem a ser, e que, toda a produção seria vendida Coisa pouco ou nada falada, mas de relevo pessoal e social significativo; são os filhos da guerra. Clandestinos uns, e assumidos outros, eles são uma realidade comum a qualquer conflito armado prolongado no tempo como foi o caso daqueles em que participamos em África. Não cabe aqui a discussão da legitimidade, ou não, da nossa participação naqueles conflitos enquanto Nação Colonizadora. Acusar hoje a ditadura pelos erros cometidos no correlacionado com o Ultramar Português é comum a todos nós, ou quase. Quase, porque ainda há os saudosistas que defendem esses velhos tempos de glória e miséria. Mas como dito no início, o que descrevo hoje tem a ver com os filhos de pai branco e mãe africana que ficaram por essa África imensa. Na Guiné, Angola e Moçambique, existem hoje muitos homens e mulheres que vivem sem saber quem é o seu pai biológico. São os filhos da guerra, da circunstância da paixão do momento, e também do amor que tantas vezes desabrochou entre os jovens militares e as nativas, independentemente da cor da pele. Um destes filhos da Guerra apresentou-se certo dia a uma família dos arredores de Paços de Ferreira que vivia ”como quase todas” da indústria do mobiliário. Pensaram os abastados proprietários que seria um comerciante Africano que viria fazer uma grande encomenda de móveis, mas, quase caíram desmaiados quando o fulano disse ao que vinha. Ele vinha conhecer o Pai! Perguntou ao chefe da família se se lembrava da Alzira, a mulata que lhe lavava a roupa e a farda de furriel? O homem, íntegro como sempre fora, disse que sim, e não foi difícil perceber que o Africano era seu filho, “tal a semelhança com os meios irmãos Portugueses” assumindo de imediato fazer um teste de paternidade. Confirmada a paternidade, os meios irmãos entraram em pânico pela chegada de mais um herdeiro, e escorraçaram o homem quase a pontapés. Calmamente ele disse que apenas viera conhecer o Pai e que nada mais queria, por isso poderiam ficar os irmãos descansados. . Tinham 20 anos para pagar a dívida, e uma vez paga, a empresa voltaria a ser deles. Claro que eles quiseram saber quem era o investidor tão humano, e todos Vós já adivinhasteis quem era. Precisamente o irmão, filho da guerra corrido a pontapés uns tempos antes. A história não é real, mas quase. Não conhecem casos parecidos? Fiquem bem de Pampilho ao Alto.

Ernestino Tomé Alves
Advogado

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